Poema do mar

O drama do Mar, 
O desassossego do Mar, 
sempre 
sempre 
dentro de nós! 

O Mar! 
cercando 
prendendo as nossas Ilhas, 
desgastando as rochas das nossas Ilhas! 
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores, 
roncando nas areias das nossas praias, 
batendo a sua voz de encontro aos montes, 
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas… 

O Mar! 
pondo rezas nos lábios, 
deixando nos olhos dos que ficaram 
a nostalgia resignada de países distantes 
que chegam até nós nas estampas das ilustrações 
nas fitas de cinema 
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros 
quando desembarcam para ver a pobreza da terra! 

O Mar! 
a esperança na carta de longe 
que talvez não chegue mais!… 

O Mar! 
saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados, 
histórias da baleia que uma vez virou a canoa… 
de bebedeiras, de rixas, de mulheres, nos portos estrangeiros… 

O Mar! dentro de nós todos, 
no canto da Morna, 
no corpo das raparigas morenas, 
nas coxas ágeis das pretas, 
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente! 

Este convite de toda a hora 
que o Mar nos faz para a evasão! 
Este desespero de querer partir 
e ter que ficar! 

in “Ambiente” | 1941