PRELÚDIO

Quando o descobridor chegou à primeira ilha 
nem homens nus 
nem mulheres nuas 
espreitando 
inocentes e medrosos 
detrás da vegetação. 

Nem setas venenosas vindas do ar 
nem gritos de alarme e de guerra 
ecoando pelos montes. 

Havia somente 
as aves de rapina 
de garras afiadas 
as aves marítimas 
de vôo largo 
as aves canoras 
assobiando inéditas melodias. 

E a vegetação 
cujas sementes vieram presas 
nas asas dos pássaros 
ao serem arrastados para cá 
pelas fúrias dos temporais. 

Quando o descobridor chegou 
e saltou da proa do escaler varado na praia 
enterrando 
o pé direito na areia molhada 

e se persignou 
receoso ainda e surpreso 
pensa n´El-Rei 
nessa hora então 
nessa hora inicial 
começou a cumprir-se 
este destino ainda de todos nós 

Jorge Barbosa in “Caderno de um Ilhéu” | 1956