O Avô e o Neto

Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido:
ʺAh, quem me dera voltar
A estar assim entretido!
ʺQuem me dera o tempo quando
Castellos assim fazia,
E que os deixava ficando
Ás vezes p’ra o outro dia;
ʺE toda a tristeza minha
Era, ao acordar p’ra vel-o,
Ver que a creada já tinha
Arrumado o meu castello.ʺ
Mas o neto não o ouve
Porque está preoccupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.
E, emquanto o avô scisma, e, triste,
Lembra a infancia que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castello cai;
E o neto, olhando afinal,
E vendo o avô a chorar,
Diz, ʺCahiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.ʺ

Fernando Pessoa in “Tesouro” | 1934
Escrita original