Libertação

Fui à praia, e vi nos limos

a nossa vida enredada:

ó meu amor, se fugimos,

ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,

uma sombra nos espreita,

e nos olhares se insinua,

de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos

decepados e torcidos:

ó meu amor, se ficamos,

pobres dos nossos sentidos.

Hão de transformar o mar

deste amor numa lagoa:

e de lodo hão de a cercar,

porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,

fronteiras ao nosso amor.

Longe daqui, onde queiras,

a vida será maior.

Nem as esp’ranças do céu

me conseguem demover

Este amor é teu e meu:

só na terra o queremos ter.

David Mourão-Ferreira