A Minha Filha

(Vendo-a dormir) 

Que alma intacta e delicada! 
Que argila pura e mimosa! 
É a estrela d’alvorada 
Dentro dum botão de rosa! 

E, enquanto dormes tranquila, 
Vejo o divino esplendor 
Da alma a sair da argila, 
Da estrela a sair da flor! 

Anjos, no azul inocente, 
Sobre o teu hálito leve 
Desdobram candidamente, 
Em pálio, as asas de neve… 

E eu, urze má das encostas, 
Eu sinto o dever sagrado 
De te beijar— de mãos postas! 
De te abençoar — ajoelhado! 

in ‘Poesias Dispersas’